Dificilmente se concebe outra questão em psicofísica em que o seu grau de importância apenas rivaliza com a frequência com que é ignorada – A linearidade da escala de resposta. Com efeito, e não obstante o facto de tal questão determinar quase por completo a validade de qualquer medição psicofísica, poucos terão sido os investigadores e teóricos a considerarem a mesma. Atente o leitor, por momentos, no seguinte esquema, descritor de uma qualquer situação psicofísica em geral:

Como se vê, uma intensidade física (φ) determina uma certa magnitude sensorial (ψ) a qual deverá, por sua vez, ser manifestada numa resposta visível (mensurável; R). Boa parte daquilo a que se convencionou designar de psicofísica moderna, descendente directa dos trabalhos de Stevens, procura inferir a relação entre intensidade física (φ) e sensação (ψ) pela correlação entre a primeira e a resposta observável (R). Como já referimos anteriormente, Stevens posicionava-se no movimento behaviourista onde tal lógica emerge como natural. Porém, note-se como a validade empírica de uma lei assim determinada depende vitalmente da segunda lei apontada no esquema – a função psicomotora. Isto é, a modalidade de resposta do observador (R), através da qual o investigador procura inferir a lei psicofísica, deverá ser tal que não distorça a sensação implícita (ψ), não observável. O mesmo é dizer, a escala de resposta deverá estar relacionada de forma linear com o atributo que pretende, em primeiro lugar, traduzir. Este é, em suma, o problema da indeterminação psicofísica – a relação entre a resposta observável e a intensidade física (também ela observável) depende da função não contemplável que se interpõe entre a própria sensação e a sua manifestação comportamental.
A rigor, estudos que procurem determinar efeitos puramente monotónicos de determinadas variáveis independentes não deverão estar ameaçados pela presente questão – esta é, de facto, uma questão puramente métrica. Contudo, veja-se o seguinte exemplo pedagógico apresentado por Norman Anderson. Um ratinho deverá correr ao longo de um percurso de um metro de forma a ter acesso a uma certa quantidade de alimento. Tanto a quantidade de comida (muita ou pouca; H ou L) como o número de dias de privação prévia (alta ou baixa; H ou L) variam ao longo da experiência. Estamos portanto perante uma situação de multideterminação – variam-se dois factores que se julga ter um impacto na motivação do ratinho para cobrir o percurso (a variável psicológica, não observável). Dois investigadores distintos encetam a experiência. Porém, enquanto que o investigador A opta por medir o tempo que ratinho leva a cobrir o percurso (um rato mais motivado deverá levar menos tempo a alcançar a comida), o investigador B efectua medições da velocidade que o rato atinge (um rato mais motivado deverá correr mais rápido). Ambas as variáveis dependentes (velocidade e tempo) encontram-se em escalas ditas de razão – possuem um zero absoluto e iguais intervalos entre iguais diferenças numéricas. Mais que isso, ambas as variáveis se relacionam entre si: a velocidade é o inverso do tempo. Contudo, observe o leitor a seguinte imagem, onde se representam possíveis resultados:

Note que o investigador B conclui que a quantidade de recompensa tem o mesmo efeito independentemente do grau de privação alimentar – conclui que as variáveis não interagem e parecem ter um efeito independente entre si; uma conclusão psicologicamente plausível. Porém, o investigador A conclui que a quantidade de recompensa tem um efeito maior em ratos pouco privados – isto é, um rato com elevada privação alimentar irá correr igualmente rápido independentemente da quantidade de recompensa; uma conclusão igualmente plausível. Coloca-se pois a questão: qual dos investigadores está correcto?
Como deverá o leitor ter antevisto, a questão prende-se directamente com a linearidade das escalas de resposta (velocidade e tempo). Em primeiro lugar, só para esclarecer os aspectos matemáticos do exemplo, velocidade e tempo possuem entre si uma relação não linear e, logo, serão de esperar resultados divergentes na combinação factorial. Contudo, e muito mais relevante para os nossos objectivos, é desconhecida a relação entre velocidade ou tempo e o construto não observável “motivação” – a quantidade que se pretendia, em primeiro lugar, estudar. Desconhecendo essa relação, é impossível atribuir razão a qualquer um dos dois investigadores. Mas como determinar que variável observável traduz ou não a magnitude de um construto não observável? Este será o tópico de um próximo post.