Quinta-feira, Março 12, 2009

Malebranche - As Impressões da Memória

Da mesma forma que os ramos de uma árvore que permaneceram por algum tempo curvados de uma determinada forma conservam uma certa facilidade para serem curvados novamente da mesma maneira, as fibras do cérebro, uma vez tendo recebido certas impressões por intermédio dos espíritos animais e pela acção dos objectos, conservam por bastante tempo alguma facilidade para receber essas mesmas disposições. Ora, a memória consiste apenas nessa facilidade, já que se pensa nas mesmas coisas quando o cérebro recebe as mesmas impressões.


(Nicolas Malebranche, 1638-1715)

Quarta-feira, Março 11, 2009

Da Indeterminação Psicofísica - O Problema da Linearidade de Resposta

Dificilmente se concebe outra questão em psicofísica em que o seu grau de importância apenas rivaliza com a frequência com que é ignorada – A linearidade da escala de resposta. Com efeito, e não obstante o facto de tal questão determinar quase por completo a validade de qualquer medição psicofísica, poucos terão sido os investigadores e teóricos a considerarem a mesma. Atente o leitor, por momentos, no seguinte esquema, descritor de uma qualquer situação psicofísica em geral:


Como se vê, uma intensidade física (φ) determina uma certa magnitude sensorial (ψ) a qual deverá, por sua vez, ser manifestada numa resposta visível (mensurável; R). Boa parte daquilo a que se convencionou designar de psicofísica moderna, descendente directa dos trabalhos de Stevens, procura inferir a relação entre intensidade física (φ) e sensação (ψ) pela correlação entre a primeira e a resposta observável (R). Como já referimos anteriormente, Stevens posicionava-se no movimento behaviourista onde tal lógica emerge como natural. Porém, note-se como a validade empírica de uma lei assim determinada depende vitalmente da segunda lei apontada no esquema – a função psicomotora. Isto é, a modalidade de resposta do observador (R), através da qual o investigador procura inferir a lei psicofísica, deverá ser tal que não distorça a sensação implícita (ψ), não observável. O mesmo é dizer, a escala de resposta deverá estar relacionada de forma linear com o atributo que pretende, em primeiro lugar, traduzir. Este é, em suma, o problema da indeterminação psicofísica – a relação entre a resposta observável e a intensidade física (também ela observável) depende da função não contemplável que se interpõe entre a própria sensação e a sua manifestação comportamental.
A rigor, estudos que procurem determinar efeitos puramente monotónicos de determinadas variáveis independentes não deverão estar ameaçados pela presente questão – esta é, de facto, uma questão puramente métrica. Contudo, veja-se o seguinte exemplo pedagógico apresentado por Norman Anderson. Um ratinho deverá correr ao longo de um percurso de um metro de forma a ter acesso a uma certa quantidade de alimento. Tanto a quantidade de comida (muita ou pouca; H ou L) como o número de dias de privação prévia (alta ou baixa; H ou L) variam ao longo da experiência. Estamos portanto perante uma situação de multideterminação – variam-se dois factores que se julga ter um impacto na motivação do ratinho para cobrir o percurso (a variável psicológica, não observável). Dois investigadores distintos encetam a experiência. Porém, enquanto que o investigador A opta por medir o tempo que ratinho leva a cobrir o percurso (um rato mais motivado deverá levar menos tempo a alcançar a comida), o investigador B efectua medições da velocidade que o rato atinge (um rato mais motivado deverá correr mais rápido). Ambas as variáveis dependentes (velocidade e tempo) encontram-se em escalas ditas de razão – possuem um zero absoluto e iguais intervalos entre iguais diferenças numéricas. Mais que isso, ambas as variáveis se relacionam entre si: a velocidade é o inverso do tempo. Contudo, observe o leitor a seguinte imagem, onde se representam possíveis resultados:


Note que o investigador B conclui que a quantidade de recompensa tem o mesmo efeito independentemente do grau de privação alimentar – conclui que as variáveis não interagem e parecem ter um efeito independente entre si; uma conclusão psicologicamente plausível. Porém, o investigador A conclui que a quantidade de recompensa tem um efeito maior em ratos pouco privados – isto é, um rato com elevada privação alimentar irá correr igualmente rápido independentemente da quantidade de recompensa; uma conclusão igualmente plausível. Coloca-se pois a questão: qual dos investigadores está correcto?
Como deverá o leitor ter antevisto, a questão prende-se directamente com a linearidade das escalas de resposta (velocidade e tempo). Em primeiro lugar, só para esclarecer os aspectos matemáticos do exemplo, velocidade e tempo possuem entre si uma relação não linear e, logo, serão de esperar resultados divergentes na combinação factorial. Contudo, e muito mais relevante para os nossos objectivos, é desconhecida a relação entre velocidade ou tempo e o construto não observável “motivação” – a quantidade que se pretendia, em primeiro lugar, estudar. Desconhecendo essa relação, é impossível atribuir razão a qualquer um dos dois investigadores. Mas como determinar que variável observável traduz ou não a magnitude de um construto não observável? Este será o tópico de um próximo post.

Quarta-feira, Março 04, 2009

Funções Psicofísicas – Um exemplo lúdico

Uma qualquer referência à área científica da Psicofísica resulta, invariavelmente, em alguma estranheza por parte do ouvinte, fruto da indevida (leia-se, ausente) divulgação desta, seja na comunidade científica em particular, seja da população em geral. Poderíamos aqui transcrever qualquer uma das inúmeras definições gerais dadas à área. Porém, parece-nos muito mais ilustrativo e interessante ao leitor apresentar um breve exemplo quotidiano, simultaneamente lúdico e pedagógico, da autoria de Gunnar Borg.

Ao volante de um automóvel (e, obviamente, assegurando-se de que dispõe de possibilidades de, em segurança, realizar este exercício), conduza, durante algum tempo, a uma velocidade de 50 Km/h. Procure centrar-se o melhor possível na sensação de velocidade. De seguida, e sem recorrer ao velocímetro, reduza a velocidade até que esta lhe pareça ser subjectivamente de metade daquela que sentia aos 50 Km/h. Quando sentir que a sua sensação de velocidade desceu para metade, mantenha-a o tempo suficiente para uma leitura da velocidade real.

Certamente, e sem surpresas, a velocidade obtida não terá sido de 25 Km/h (os seres humanos cometem um erro médio neste tipo de tarefas). Contudo, e notará este ponto se repetir o exercício diversas vezes (de preferência, com velocidades iniciais diferentes ou ainda usando como sujeitos qualquer outro seu conhecido), a velocidade obtida será sistematicamente superior aquela que seria de esperar se a velocidade subjectiva se relacionasse de forma linear com a velocidade real. Na verdade, para uma velocidade inicial de 50 Km/h deverá resultar num valor mais próximo de cerca de 35 Km/h.

Com efeito, a sensação de velocidade (ou velocidade subjectiva) cresce de forma não linear em função da velocidade real, mais propriamente de acordo com uma função matemática de potência, com um expoente de 2 – portanto, uma função positivamente acelerada – conforme poderá ser visualizado na imagem seguinte.


A esta relação entre a intensidade de um fenómeno perceptivo (sensação) e a magnitude de um evento físico (estímulo) apelidamos, genericamente, de função psicofísica. O leitor mais atento a questões semânticas reconhecerá de imediato a raiz do termo: psico (relativo a fenómenos psicológicos subjectivos – sensação) + física (relativo a fenómenos físicos). Aliás, uma óptima definição de Psicofísica poderia ser “estudo das leis e fenómenos de percepção e sensação resultantes de estímulos físicos, tais como descrito pela Física”.

Voltemos então à nossa função psicofísica de velocidade por forma a analisar mais atentamente o fenómeno que o leitor terá (ou não) percepcionado. Veja-se, na imagem seguinte, como uma redução para metade no eixo da sensação subjectiva é acompanhada de um decréscimo necessariamente inferior a metade no eixo da velocidade. Outra forma de colocar a questão seria notar que a taxa de crescimento da sensação de velocidade é superior à taxa de crescimento da velocidade real.


Outra situação na qual o leitor poderá constatar os efeitos desta lei psicofísica resulta da chamada “ilusão da auto-estrada” na qual, após circular durante algum tempo a velocidades de cerca de 100 km/h (ou mais) e ao sair dessa via, necessitando para tal de desacelerar até, pelo menos, cerca de 50 Km/h, a sensação daí resultante é de uma descida da velocidade claramente superior a metade (ainda que fisicamente seja esse o rácio).

Obviamente, qualquer modalidade sensorial ou perceptiva (mesmo sem dispor de uma métrica física, nalguns casos) é pertinente para uma abordagem psicofísica. Por outro lado, o estudo das funções psicofísicas não esgota em si mesmo todo o campo de pesquisa desta disciplina. Palavras chave para Psicofísica poderiam, pois, ser: estímulo, sensação, medida, formalização matemática. Reservamos para um post futuro algumas considerações acerca da Psicofísica aplicada (porém, a título de pistas, referimos as industrias alimentares, vinícolas, tabaqueiras, etc; em suma, áreas aplicadas nas intensidades perceptivas emerge num papel central).